domingo, 12 de abril de 2009

Le Blé Noir

Amigos e amigas,

semana passada pude retornar ao Le Blé Noir, restaurante de crepes, que fez grande fama em Copacabana. A verdade é que ele está mudado, reduziu de tamanho e não possui mais as "canjas" de Gigi do Acordeão às quartas-feiras. Mas continua soberbo, com crepes realmente franceses, o que deixa de ser necessário ir até a França para experimentá-los. Aliás, França não... Até a Bretanha. Já, já explico a diferença entre a Bretanha e a França.

Vale começar dizendo que o nome da casa, ou seja le blé noir , significa na verdade "o trigo negro", também conhecido como trigo sarraceno. O trigo sarraceno é altamente nutritivo, de baixa caloria e não contém glúten.



E este trigo negro é cultivado por toda Bretanha - região noroeste da França - e muito usado para as receitas do crepe bretão. Bom, então por que podemos dizer que o crepe de trigo negro é bretão, mas não é francês? Na verdade, é francês sim, mas se você perguntar a um bretão se uma receita ou um costume dele pertence a um parisiense também, ele, com certeza, não vai gostar muito não.

Isso se deve pela formação dos Estados europeus, onde cada cidade possuía costumes e culturas muito diferentes da cidade vizinha. Até hoje esses costumes são bem diferenciados e, no caso da Bretanha, seus habitantes não se acham nem um pouco francês, e sim bretões.

Para entendermos um pouco mais dessa diferença, precisamos nos apegar à história: depois da conquista da Gália pelos Romanos, a Bretanha fazia parte da Armórica (aquela região em que os irredutíveis gauleses, Asterix e Obelix, viveram.). Cerca de 500 d.C., os Bretões da ilha da Bretanha (a Grã-Bretanha atual), atacados pelos Anglo-saxões emigraram para o Noroeste da França, trazendo os seus costumes e língua. A região passou a se designar Bretanha com a sua chegada. Muitos designam-na, também, de Pequena Bretanha, por oposição à ilha de onde vieram. No início da Idade Média, a Bretanha foi dividida em três reinos - o Domnonée, a Cornualha, e o Bro Waroch - que foram incorporados ao Ducado da Bretanha. O Ducado da Bretanha esteve independente do reino de França até 1532. Guardou os seus privilégios (legislação e impostos próprios) até a Revolução Francesa.

Após toda essa introdução, me sinto mais tranquilo em começar a dizer sobre o Le Blé Noir e seus crepes. Como dito inicialmente, ele está bem menor que antigamente, mas muito aconchegante. Não tenho dúvida que ele possa ser considerado um restaurante romântico, pois, mesmo com toda a sua simplicidade, o clima de luz de velas, as músicas francesas ao fundo e os crepes acompanhados de saladas são surpreendentes.

Pedimos um Crepe de Shitake com queijo Saint Paulin e um Crepe de Cogumelos Paris com Queijo Ementhal.



Eu, particularmente, não conhecia o queijo Saint Paulin, mas arrisquei mesmo assim. Posso dizer que o queijo Saint Paulin foi inicialmente produzido pelos monges "trapistas" de Saint Paulin, em Québec, no Canadá. Sim, esse queijo é quebecoin de nascença. No entanto ele atualmente é largamente produzido na baixa-normandia, em Lorraine e, é claro, na Bretanha. Possui um gosto forte, mas para quem gosta de queijos, não se arrependerá da escolha. Me lembrou o Saint Marcelin. Bom, ao menos, há algum santo no meio deles!




O mais importante que posso dizer é que a combinação deste queijo com o Shitake ficou ótima, pois como o shitake não tem um gosto forte, não houve um briga de sabores.

O outro crepe também estava ótimo, mas muito mais leve, pois o ementhal é um queijo com um sabor muito delicado - e os cogumelos Paris apenas deram uma consistência ao recheio do crepe.

Para nos tornarmos verdadeiros bretões, só faltou beber cidra, procedente do sumo de maçã fermentado - bebida típica do bretão. Na Bretanha há AOC (Appellation d'Origine Contrôllée) para as cidras.

Após degustarmos tudo, chegou a hora de ver se o trigo sarraceno era capaz de oferecer crepes doces tão bons quanto os salgados.

Pedimos dois crepes de sobremesa: (1) crepe de sorvete de creme, licor de cassis e farofa de nozes; e (2) Trouxinhas de chocolate.



Os dois estavam perfeitos, sendo que o primeiro chamou mais a minha atenção, pois o licor de cassis deu um toque especial, de modo que este crepe poderia ser sobremesa de qualquer restaurante, que seria de comer rezando, em qualquer parte do planeta.

No entanto, como gosto de chocolate, principalmente amargo, não posso preterir o segundo como de classe inferior. Os crepes aqui eram dobrados em forma de trouxinhas, recheados com um sorvete de creme em uma consistência perfeita e "atolados" em uma calda de chocolat amarga. Parfait!



Bom, aceite a minha sugestão: vá ao Le Blé Noir e tire as suas próprias conclusões.

Beijos e abraços!



Rua Xavier da Silveira, 19 - Copacabana, Rio de Janeiro (Tel. 2267-6969)

4 comentários:

Marcia disse...

Henrique, obrigada pelo post bem explicativo e pela ótima dica! Ontem fui ao Le Blé Noir e fiquei realmente encantada! Com os crepes, com o ambiente e com o atendimento. Eu não consideraria o ambiente propriamente romântico, apesar das velas, pois estava cheio e meio barulhento. Mas vale muito a pena ir lá para conferir!

Henrique Cesar Tupper disse...

Oi Márcia.
Que bom que você gostou das dicas... Fico feliz, até porque esse é o intuito principal do blog. E em relação ao restaurante ser romântico, concordo com você. Mas para mim será sempre romântico, pois foi o primeiro restaurante que fui com a minha namorada quando comecei a sair com ela... O restaurante era o dobro do tamanho, de fato amis espaçoso, e havia um show de música francesa com o Gigi do Acordeão... Infelizmente ele não toca mais lá...

Anônimo disse...

Há muitos anos frequento o restaurante.Desde a epoca que tinha musica ao vivo. Porem no ultimo sabado fui com minha familia e foi uma decepção geral. Os crepes estavam gordurosos , empapados. e o atendimento deixou muito a desejar. Os pratos vieram trocados tivemos que pedir para devolver pois o que era para vir com emental veio com roquefor e vice versa. na hora de pagar a conta pedi uma explicação em relação a comanda que não estava entendendo e fui tratada com muita rispidez. Eu sempre recomendei o restaurante aos amigos mas agora não sei se continuo recomenmdando

Henrique Cesar Tupper disse...

Olha anônimo,
a coisa que mais decepciona um amante da boa comida e ter um mal atendimento em um restaurante que você já é cliente ou gosta muito, há tempos...
Eu sou fã do Blé Noir e graças à Deus nunca tive nenhum descontentamento por lá... Mas ja tive uma decepção grande no Miam Miam, que gosto muito, e já tive meu infortúnio na Majórica, que é um dos que eu mais gosto.
Não sei... Talvez tenha sido o dia, ou talvez tenha sido uma mudança de comando ou uma simples mudança de gestão dos mesmos sócios...
Mas é isso mesmo: se não tiver do agrado, tem que meter boca no trambone mesmo... Se a propaganda boca-à-boca pode ser positiva, ela também pode servir como um instrumento punitivo, não é?
Boa sorte e abraços.

Quem sou eu

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Olá, sou carioca e um grande apreciador de um bom prato. Com este intuito, tentarei escrever as minhas impressões sobre os restaurantes em que eu vier a comer - descrevendo qualidades e defeitos de cada um. Caso tenha o interesse de complementar as minhas opiniões, por favor, não deixe de contribuir. Restaurantes bons devem ser vangloriados, enquanto restaurantes ruins devem ser evitados. Não concorda? Então, vamos lá... Mãos ao garfo!