domingo, 1 de fevereiro de 2009

Quadrifoglio

Amigos e amigas, há pelo menos dez anos eu não ia no Quadrifoglio - restaurante de massas, muito famoso tempos atrás. Talvez a minha grande surpresa seja que, em plena segunda feira, véspera de feriado, o restaurante se encontrava vazio.

Talvez seja pelo fato de que o restaurante não faça um marketing ostensivo, como em seus tempos áureos. Ou, talvez, seja pelo simples fato de que muitos cariocas tenham enforcado o feriado e, assim, tenha esvaziado a cidade e, consequentemente, o restaurante.

Verdade seja dita é que eu agradeço - não há nada melhor para um cliente de um restaurante, como degustar um excelente prato com o bom e velho silêncio. Silêncio que hoje em dia parace ser cada vez mais raro. Caramba, é mesmo! Vocês já repararam o quanto é difícil comer em um restaurante silencioso hoje em dia? Amigos, por favor me indiquem restaurantes que sejam silenciosos, eu agradeço! Principalmente, no centro do Rio de Janeiro.



Bom, além do restaurante estar vazio, eu agradeço também a qualidade com que fomos tratados: desde o maître, ao sommelier, que nos indicou um vinho servido em taça, espetacular; e, sobretudo, o carinho com que o garçon dedicado a nossa mesa nos reservou. Há tempos postei uma resenha sobre a qualidade do atendimento do Gero e posso garantir que o atendimento do Quadrifoglio não deixa nada a desejar - confesso que achei até superior. Espero voltar lá e não ter uma surpresa negativa, pois ultimamente... deixa pra lá.

No tocante aos pratos, todos excepcionais. Iniciamos com um couvert que na minha opinião pecava pela falta de um pão mais... como eu posso dizer? Mais europeu... Ou, mais duro! Talvez seja um excesso meu, mas eu adoro pão com casca dura. Mas, a verdade é que todos os pães, como os palitinhos temperados, estavam deliciosos. Era possível comê-los com manteiga, ou azeite com alecrim, ou com uma pastinha bem gostosa de tomate seco.

Foi servido ainda no couvert um creme de abôbora e um pastelzinho de queijo, bem curioso!

Pedi de entrada um carpaccio clássico de carne que estava divino. Muito bem temperado e, ao mesmo tempo, sem exagero. Ou seja comme il faut.




Como prato principal, pedi o meu preferido, o de toda hora, o bom e excepcional risoto. Neste caso, de camarão com queijo mascarpone e cubinhos de melão! Confesso que a princípio fiquei meio desconfiado quando eu li esta combinação no cardápio, mas como o maître me sugeriu com bastante entusiasmo, acabei aceitando-o e não lamento. Muito pelo contrário, recomendo.

Vale a pena avaliar a indicação do vinho de ótimo custo benefício pelo sommelier da casa: Alamos Cabernet Sauvignon 2007, vinho argentino da região de Mendoza produzido pela casa Catena Zapata. Aliás, quem for a Mendoza, vale ir conhecer esta vinícula que foi construída nas mesmas bases arquitetônicas de uma pirâmide maia. O vinho foi servido em uma temperatura correta, resfriado apropriadamente, e me fez pensar quais outros bons vinhos devem existir nessa casa, já que este eles o selecionaram para servir em taça. Parabéns a casa pelo cuidado com que servem o vinho.


Por último, embora não tenha comido sobremesa, ouvi excelentes comentários sobre o Trio Crème Brûlée: de chocolate, frutas vermelhas e limão siciliano. Servido delicadamente em três potinhos, pareciam ótimos. Para quem gosta, sem dúvida nenhuma, é uma ótima pedida - mas, atenção, o Trio Crème Brûlée não está no cardápio!

Pra finalizar a refeição nada melhor do que um café, com gosto de café, servido com uma trufinha de chocolate de derreter na boca.

Toda essa qualidade com muita simpatia! Alías, eu às vezes fico pensando, como são as coisas da vida... Muitos esqueceram o que significa a palavra simpatia. Não digo apenas em relação ao atendimento de restaurantes, mas falo com um sentindo mais amplo: o seu vizinho que desce no elevador junto com você e não dá "bom dia", o Sr. que trabalha ao seu lado e não sorri, fingindo nunca ter te visto, o jornaleiro que trabalha de mau humor. Enfim, existem muitos exemplos para mostrar que ser simpático é um predicativo que está cada vez mais em desuso hoje em dia.

As pessoas estão se tornando cada vez mais bem sucedidas, estão se tornando altos executivos, donos de uma cadeia de lojas, médicos concorridos, gestores financeiros vencedores, chefes de cozinha da moda, mas estão esquecendo cada vez mais do adjetivo simpático, beirando a própria falta de educação. Talvez seja a falta de tempo, ou talvez seja o stress da vida moderna... Não sei. O que sei é que sem simpatia o homem se aproxima cada vez mais dos animais selvagens, brutos, obtusos, onde o acasalamento e o atrito são únicos contatos que eles têm com o seres da mesma espécie.

Faço campanha para que a simpatia seja imperativo fundamental para todos nós, como conduta de educação de todas as crianças do século XXI. Imagine viajarmos para Paris, Nova York ou qualquer outra cidade cosmopolita do mundo e sermos recebidos com simpatia. Isso sim seria um sonho... Ao mesmo tempo, como podemos clamar para o fim da "guerra", ou da intolerância, se não há simpatia nem cordialidade entre moradores de um mesmo prédio?

Bom, chega de campanha e pensamentos dissociados, rs! E, para finalizar esta resenha gastronômica, deixo o meu pensamento, que talvez seja o diferencial para algumas casas como o Quadrifoglio, e para aqueles que querem encontrar um restaurante com um ótimo atendimento:

"O bom atendimento é aquele em que a casa serve os seus cliente de modo impecável. O ótimo atendimento é aquele em que a casa serve os seus clientes de modo impecável e com simpatia."

Beijos e Abraços

Rua J. J. Seabra, 19 - Jardim Botânico, Rio de Janeiro (Telefone: 2294-1433).

3 comentários:

Bruno disse...

bem colocado. quanto mais se desenvolve, mais se embrutece. alguns chamam isso de progresso.

a natureza nos dá todas as respostas da vida, mas o ser humano é arrogante demais para se ajoelhar perante a mesma.

finalizando, não satisfeito em subjugá-la, ele a destrói. em nome do progresso. em nome da matéria. em nome do empobrecimento das relações humanas.

Carolina disse...

que profundo, henrique...

Fernando disse...

HCT, o restaurante pode estar vazio por que pelo o que eu sei mudou de chef. Quem tocava a cozinha da casa era a Silvana Bianchi. A filha dela morreu ao dar a luz, faz um ano. Pelo o que eu sei ela saiu do restaurante por conta disso. Mas pelo seu comentario o restaurante continua bom.

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Olá, sou carioca e um grande apreciador de um bom prato. Com este intuito, tentarei escrever as minhas impressões sobre os restaurantes em que eu vier a comer - descrevendo qualidades e defeitos de cada um. Caso tenha o interesse de complementar as minhas opiniões, por favor, não deixe de contribuir. Restaurantes bons devem ser vangloriados, enquanto restaurantes ruins devem ser evitados. Não concorda? Então, vamos lá... Mãos ao garfo!