Mostrando postagens com marcador Dostoiévsky. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dostoiévsky. Mostrar todas as postagens

domingo, 2 de dezembro de 2012

A Gastronomia na Literatura

Amigos e amigas,

antes de mais nada, aviso: esse post não fala sobre nenhum restaurante. Esse post nasceu de uma curiosidade minha em relação a essa "onda" de foodies que assola o mundo. Seria isso um fenômeno atual ou a veneração à boa comida é antiga, mas foi catalisada pela internet?

Assim, ao longo desse ano, lendo alguns livros, sempre que me deparava com alguma descrição gastronômica, eu anotava para que fosse composto esse post. Com exceção do escritor Ian McEwan - que é atual - os demais autores que descrevo foram de outro tempo: Hemingway e Fitzgerald, representantes da "geração perdida", que após a primeira guerra mundial viveram a "época de ouro" em Paris; por fim, Dostoiévski, que é o escritor atemporal que melhor descreve o egoísmo humano.

Seguem os relatos.

Ernest Hemingway, em "Paris é uma Festa", ao descrever uma viagem que fizera em companhia de Scott Fitzgerald a Lyon, cita as seguintes emoções:

"Comemos uns escargots geniais e tomamos uma garrafa de Fleury, para começar. Estávamos na metade quando se completou uma ligação pedida por Scott. Ele demorou quase uma hora, que aproveitei para comer os escargots do seu prato, molhando pedacinhos de pão no molho delicioso de manteiga, alho e salsa. Quando Scott voltou, quis pedir outra porção para ele, mas ele recusou." (p. 194).

Logo em seguida, Hemingway destaca, como um bom "foodie", o que é que a Côte d'Or tem de melhor a oferecer aos amantes da gastronomia francesa. A Côte d'Or (costa de ouro) fica na região da Borgonha, famosa pelos seus vinhos pinot noir e chadonnay, e a cidade de Dijon é a sua "capital":

"Já tínhamos comido frango, na viagem, mas como ainda estávamos numa região da França que era famosa pelas suas galinhas, pedi como ele (Scott) uma poularde de bresse e, para acompanhá-la, uma garrafa de Montagny, um vinho branco muito leve, das redondezas." (p. 195).

Sem dúvida, Hemingway gostava de comer, de beber e de descrever o que comia. Em uma de suas viagens aos alpes austríacos, mais especificamente à cidade de Schruns, após escalar as montanhas - que naquela época não possuíam teleféricos - e depois esquiar, o nosso herói detalha:

"Essa movimentação toda nos abria o apetite e celebrávamos as horas de refeição como se fossem acontecimentos especiais. Bebíamos cerveja clara ou escura. Vinho novo e, às vezes, vinho de um ano. Outras bebidas que apreciávamos eram o kirsch que destilavam no vale e o schnapps preparado com a genciana da montanha. Quando nos serviam ao jantar lebre recheada em molho de vinho tinto ou carne de gamo com molho de castanhas, bebíamos sempre vinho tinto (...)" (p. 225-226).

Scott Fitzgerald era amante da França e também um gourmet. Em seu livro autobiográfico "Suave é a Noite", ele descreve as aventuras dos Diver - a família protagonista de seu livro: "Os Diver foram jantar em Nice e comeram uma bouillabaisse, que é um ensopado de frutos do mar e lagostins, muitíssimo temperado com açafrão, e tomaram uma garrafa de Chablis gelado" (p. 313).

Dostoiévsky é o craque. Da literatura à filosofia, ele transcorre facilmente sem o leitor notar sobre diversos assuntos, conceituando a sociedade russa de sua época. No livro "Os Demônios",  Dostoiévsky relata o fanatismo ideológico de uma época, prevendo, ainda no século XIX, os horrores de governos que viriam assolar a Alemanha "hitleriana" e a Rússia (URSS) "stalinista" nos anos seguintes.

Nesse livro, pesado como todos os seus livros, não há descrição de uma bela gastronomia, nem de  prazeres gastronômicos. No entanto, entre chás e samovars, ele descreve o último desejo de um jovem suicida: "Depois de acordar pediu almôndegas, uma garrafa de Château d'Yquem e uvas, papel, tinta e a conta" (p. 321).

Ian McEwan é um escritor britânico de sucesso. Um de seus livros, "Reparação", virou até filme estrelado pela Keira Knightley - lançado no Brasil com o título de "Desejo e Reparação".

No entanto, em um de seus últimos romances "Na Praia", que destaca a problemática da sexualidade/virgindade que existia no início da década de 60 na Inglaterra, há generosos relatos sobre os costumes gastronômicos da cidade de Londres da época.

Inclusive sobre a má qualidade gastronômica que os britânicos por muito tempo sustentaram:
"Aquele não era  um bom momento na história da culinária inglesa, mas na época ninguém se importava muito, à exceção dos visitantes estrangeiros." (p. 8)

Acho que essa "maldição" gastronômica inglesa, associado com a pluralidade cultural dos profissionais que a city londrina atraiu, foram os motores motivacionais para reconstruir a fama dos restaurantes londrinos. Digo isso porque hoje é possível encontrar pratos de alta gastronomia de qualquer país, em todas as esquinas de Londres.

Além das diversas páginas em que o autor destaca a má comida britânica da década de 60, há também a descrição da comida que era servida às classes mais abastadas de Londres; e os primeiros contatos de um jovem de origem humilde, filho de um camponês, com tais iguárias:

"A sua própria educação estava ganhando velocidade. Durante aquele verão, ele comeu pela primeira vez uma salada com molho de limão e azeite, e tomou iogurte no café da manhã - uma substância glamourosa que ele só conhecia de um romance de James Bond." (p. 93)

Um pouco mais a frente, o romance mostra que o jovem camponês começou a se tornar sofisticado quando este:

"Incorporou algumas das novidades imediatamente: café filtrado e moído na hora, suco de laranja no café da manhã, confit de pato, figos frescos." (p. 94)

Mas dos relatos de Ian McEwan, os que eu mais me surpreendi foram sobre o alho e as batatas.

"(...) Teve de superar o nojo, nem tanto pelo gosto, mas pela reputação, do alho." (p. 94)

O que mostra que não se comia alho indistintamente pela Inglaterra em 1960. Sobre as batatas:

"(...) Pela primeira vez na vida, deparava com müsli, azeitonas, pimenta do reino fresca, pão sem manteiga, anchovas, cordeiro malpassado, queijo que não fosse cheddar, ratatouille, salame, bouillabaisse, refeições completas sem batatas (...)" (p. 94)

Sabe-se que a batata é uma das bases da culinária tradicional inglesa. Tal revelação acima destaca as diferenças de classe no simples comer daquela época.

É amigos, Ian McEwan sem dúvida não pode entrar no rol dos demais escritores, por viver agora. Mas só de detalhar os costumes alimentares da época de 60 em seu país, mostra como a gastronomia era e é ainda importante para ele também.

Espero que tenham gostado.

Beijos e abraços,


Twitter/Instagram
@viverparacomer

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Almoço de Fim de Ano - Taberna do Juca

Prezados amigos e amigas, conforme dito, trago a vocês a resenha prometida sobre a Taberna do Juca. Esta casa fica localizada nos arredores da Lapa, ao lado do Carioca da Gema - casa consagrada pela boemia.

A noite, a Taberna do Juca é um bar disputado e muito conhecido pelas suas deliciosas empadas. Situado em um casarão antigo, que parece ter mais de 150 anos, ele nos remete à idéia de um Rio de Janeiro do século XIX, de um Rio de janeiro de Machado de Assis.



Ao falar do velho Bruxo do Cosme Velho, aproveito para dizer que eu acabei de reler Dom Casmurro (juro que não fui influenciado pelo seriado, que nem cheguei a ver). Quando eu o li primeiramente eu ainda estudava no Cosme Velho. Mas não era bruxo, nem tinha vocação para compreendê-lo. Após ter relido, entendo a importância do Machado de Assis. E, realmente recomendo, a quem não leu, lê-lo. Principalmente Dom Casmurro.




A história todos já conhecem. Mas, como ele traça o enredo é que é muito curioso. As relações que ele faz com Otelo, de Shakespeare, aumentam a trama. Mas, para mim, eu não tenho dúvida e afirmo que não há enigma: a Capitu traiu!

A minha resolução não é apenas devido aos flagras que Bentinho deu em Capitu em conversas com Escobar em sua própria casa. Ou em saber que a Capitu esteve visitando Escobar na casa dele - ainda que ela alegasse que era apenas visita de negócios, que viria orgulhar o seu marido posteriormente.

Também não dou crédito que a traição de Capitu seja baseada na coincidência de Ezequiel, seu filho, ser parecido (jeito de andar, olhos, tudo... até a voz) com o falecido colega de Bentinho.

O cerne principal da minha tese, de que a Capitu realmente traiu Bentinho, se concentra na tese principal de um outro escritor contemporâneo a Machado de Assis: Fiódor Dostoiévsky.



Em um primeiro momento, segundo os relatos de Dom Casmurro, Capitu vem frequentemente chamar a atenção de Bentinho de como o filho tem um jeito de andar parecido com Escobar e como o jeito de olhar também se assemelha - o que parece que ela quer confessar ao longo da trama o próprio pecado.

Depois, quando Bentinho acusa que seu filho na verdade nada mais é do que fruto da traição de Capitu com Escobar, ela discute pouco e ela mesma corrobora que se ele pensa assim, não lhe resta mais nada do que a separação.

Ela não apenas ameaça a separação como lhe é infringido o castigo. Castigo de um crime que ela praticamente confessa... Em um dos relatos chaves do livro, quando seu filho entra no quarto, onde o casal discutia a verdadeira paternidade, Capitu olha para a criança e em seguida para o retrato de Escobar. Ela não só percebe a semelhança como também perde os argumentos sobre a sua fidelidade.

Esse crime (a traição) é seguido de um castigo (o exílio na Suiça) aceito e praticamente auto-aplicado - exatamente como na tese do homem ordinário de Dostoiévsky - principalmente em função da base religiosa da Capitu (preceito básico, "sem a religião o homem faz tudo"). Lembro que Dostoiévsky era mais ou menos 30 anos mais jovem que Machado de Assis. Sabe-se que Machado de Assis lia muito bem francês e como, na época, só existia traduções deste livro em francês, eu estou certo de que Machado bebeu dessa fonte.

Em suma, não existe dúvida ou enigma. Na minha opinião, o único enigma que há é que os acontecimentos descritos por Machado de Assis revelam não apenas o enredo do seu romance, como também retratam o formato dos relacionamentos da sociedade do seu tempo. Quantos casais do século XIX não deviam ter esta dúvida (ou certeza) que Dom Casmurro tem?



Acho que me estendi, e o que era para ser um parágrafo ficou além do que eu tinha pensado. Cortando a Capitu e voltando ao almoço na Taberna do Juca, preciso dizer que fomos lá depois de tentarmos ir a um outro restaurante chamado Mangue Seco. Como este restaurante estava completamente entupido, ficamos andando por toda a rua do Lavradio até chegarmos a Mem de Sá.

Bom, eramos mais de 11. Conseguimos fazer uma mesa bem rápida. A maioria pediu um filet Oswaldo Aranha. De entrada comemos alguma empadinhas. Todas as empadinhas estavam bem gostosas. Entretanto, o Oswaldo Aranha... Tisc Tisc. Horroroso. Considerando que a carne estava razoável, mas que o alho que a acompanha me parecia insuficiente para acompanhar o prato... Considerando que a farofa me parecia queimada... E, por fim, considerando que a batata chips estava enxarcada de óleo...

A única coisa boa do Taberna do Juca me parece ser o preço. Mas com a qualidade servida, eu diria que apenas o preço, pois como o benefício é quase zero, acredito que o custo benefício não é válido.



Bom, acredito que a Taberna do Juca tem que permanecer somente como bar a noite! Que aí sim, é um grande sucesso. Para corroborar o que eu digo, durante o almoço, quem bebeu o chopp preto elogiou bastante.

Uma pena falar de um almoço tão ruim junto com um livro tão bom. Mas, as memórias...

Beijos e abraços.



Avenida Mem de Sá, 65 - Lapa, Rio de Janeiro, RJ (Tel: 2221-9839).

Quem sou eu

Minha foto
Olá, sou carioca e um grande apreciador de um bom prato. Com este intuito, tentarei escrever as minhas impressões sobre os restaurantes em que eu vier a comer - descrevendo qualidades e defeitos de cada um. Caso tenha o interesse de complementar as minhas opiniões, por favor, não deixe de contribuir. Restaurantes bons devem ser vangloriados, enquanto restaurantes ruins devem ser evitados. Não concorda? Então, vamos lá... Mãos ao garfo!